quinta-feira, 11 de julho de 2013

                                                                    Chimarrão

Como gaúcha que sou não poderia deixar de falar de uma tradição nossa sulista que é o Chimarrão. Até bateu uma saudade de beber um!! Não posso deixar de fazer essa homenagem com o texto de Barbosa Lessa (Luiz Carlos Barbosa Lessa (Nascido em Piratini em 1929  e faleceu em Camaquã em 2002) foi um folclorista, escritor, músico, advogado e historiador.
Escreveu cerca de 61 obras, entre contos, músicas e romances. Participou intensivamente do processo de construção do Movimento que registrou e difundiu a cultura gaúcha do homem do campo. Em 1948, ele com 19 anos de idade junto com um grupo de colegas do ensino secundário criaram o Movimento Tradicionalista Gaúcho e o primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas) da História, definindo as características do que hoje é considerado o tipo "Gaúcho".
Dentre suas obras mais conhecidas destacam-se Rodeio dos ventos, um épico sobre como seria vida do povo gaúcho, e Os guaxos, pelo qual recebeu prêmio em 1959 da Academia Brasileira de Letras.
Ao mesmo tempo em que se dedicava à implantação do tradicionalismo, Lessa passou a pesquisar a música regional. Em 1957, criou a popular toada Negrinho do Pastoreio, canção é baseada na lenda do jovem escravo que, ao perder a tropilha de cavalos do patrão, é agrilhoado a um formigueiro para ser devorado pelos insetos. 


A MULHER E O CHIMARRÃO

Se o amigo anda escolhendo noiva, bote sentido nas palavras deste índio calejado pela vida.

Antes de mais nada, se alembre que casamento é que nem mate servido pra visita de cerimônia: a gente tem de acompanhar e aguentar até o fim, mesmo depois de enfarado.

É por isso que a escolha tem de ser feita com todo o tino.

Moça mui novinha não serve: é mate com cachaça - embebeda ou estraga do estômago.

Moça mui cheia de inteligências - é mate com bomba nova: a gente custa a acertar a embocadura, e às vezes não acerta nunca.

Moça loira - mate de erva fraca: em seguida perde o gosto.

Moça de olho parado - mate frio; e tereré não resolve.

Moça desfrutável - é o primeiro mate; chupe o mais que possa, companheiro, e cuspa fora, que os pintos aproveitam logo.

Moça criada muito solta - é mate de roda mui grande: quando chega a nossa vez a erva já está lavada.

Mas, por outro lado, moça criada muito presa - é mate quente e entupido: quando desentope é um deus-nos-acuda, sai pelando os beiços!

De moça rechonchudinha eu meu agrado: é mate com cancorosa, bom pra o sangue que é barbaridade!

Tome tenência com moça bem morena e de olho reluzento: é mate enchido pela bomba, com água de pelar porco. Erva de sustância, seu!!

Viúva nova e linda - é mate recém virado. Precisa água bem quente. E sai com uma força!

Viúva nova, linda e rica - é mate com bolo frito. Pra o descanso não há coisa melhor!

Mas meu conselho aí vai: ceve o mate da felicidade com uma chinoca recatada e dona de si - é mate com sabugueirinho-do-campo: bom pra tudo!.

E pra terminar a charla, aqui vão algumas comparações:

Moça nova e forte que casa com velho - O mate pra o estribo. Viaja em seguida.

Mulher casada que faz coisa feita - Mate que um ceva e outra toma.

Mulher solteira que chega aos 34 anos ainda esperando noivo - É o mate de João Cardoso.

E depois dos 34, só com muito jeitinho se escapa de virar mate entupido”.

Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa.

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