Chimarrão
Escreveu cerca de 61 obras, entre contos, músicas e romances. Participou intensivamente do processo de construção do Movimento que registrou e difundiu a cultura gaúcha do homem do campo. Em 1948, ele com 19 anos de idade junto com um grupo de colegas do ensino secundário criaram o Movimento Tradicionalista Gaúcho e o primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas) da História, definindo as características do que hoje é considerado o tipo "Gaúcho".
Dentre suas obras mais conhecidas destacam-se Rodeio dos ventos, um épico sobre como seria vida do povo gaúcho, e Os guaxos, pelo qual recebeu prêmio em 1959 da Academia Brasileira de Letras.
Ao mesmo tempo em que se dedicava à implantação do tradicionalismo, Lessa passou a pesquisar a música regional. Em 1957, criou a popular toada Negrinho do Pastoreio, canção é baseada na lenda do jovem escravo que, ao perder a tropilha de cavalos do patrão, é agrilhoado a um formigueiro para ser devorado pelos insetos. 

A MULHER E O CHIMARRÃO
Se o amigo anda escolhendo noiva, bote sentido nas palavras deste índio calejado pela vida.
Antes de mais nada, se alembre que casamento é que nem mate servido pra visita de cerimônia: a gente tem de acompanhar e aguentar até o fim, mesmo depois de enfarado.
É por isso que a escolha tem de ser feita com todo o tino.
Moça mui novinha não serve: é mate com cachaça - embebeda ou estraga do estômago.
Moça mui cheia de inteligências - é mate com bomba nova: a gente custa a acertar a embocadura, e às vezes não acerta nunca.
Moça loira - mate de erva fraca: em seguida perde o gosto.
Moça de olho parado - mate frio; e tereré não resolve.
Moça desfrutável - é o primeiro mate; chupe o mais que possa, companheiro, e cuspa fora, que os pintos aproveitam logo.
Moça criada muito solta - é mate de roda mui grande: quando chega a nossa vez a erva já está lavada.
Mas, por outro lado, moça criada muito presa - é mate quente e entupido: quando desentope é um deus-nos-acuda, sai pelando os beiços!
De moça rechonchudinha eu meu agrado: é mate com cancorosa, bom pra o sangue que é barbaridade!
Tome tenência com moça bem morena e de olho reluzento: é mate enchido pela bomba, com água de pelar porco. Erva de sustância, seu!!
Viúva nova e linda - é mate recém virado. Precisa água bem quente. E sai com uma força!
Viúva nova, linda e rica - é mate com bolo frito. Pra o descanso não há coisa melhor!
Mas meu conselho aí vai: ceve o mate da felicidade com uma chinoca recatada e dona de si - é mate com sabugueirinho-do-campo: bom pra tudo!.
E pra terminar a charla, aqui vão algumas comparações:
Moça nova e forte que casa com velho - O mate pra o estribo. Viaja em seguida.
Mulher casada que faz coisa feita - Mate que um ceva e outra toma.
Mulher solteira que chega aos 34 anos ainda esperando noivo - É o mate de João Cardoso.
E depois dos 34, só com muito jeitinho se escapa de virar mate entupido”.
Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa.
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